14 de jul de 2016

Está chovendo...

motivação para a escrita

  Está chovendo. Uma chuva calma, mas forte o bastante para ensopar meus tênis. No chão, são refletidas as luzes dos prédios, como um espelho desfigurado. Carros mantem-se a maior parte do tempo parados por conta do trânsito do fim do dia, e enquanto caminho, observo-os. É um pouco difícil de ver em seu interior, mas há sempre a presença de pelo menos uma pessoa.
  Paro em uma esquina, o semáforo sinaliza a cor verde, onde sua reflexão banha a água da chuva no chão, e me chama a atenção a um carro estacionado. Dentro encontra-se um homem, jovem, provavelmente um empresario, em seu traje social. Fala ao telefone, hora mexendo em sua papelada, hora bufando e tapeando o volante. Levantou o olhar e voltou-o a mim. Agora apenas ouvia quem quer que fosse que estivesse do outro lado da linha. Continuo o observando, seus dedos palpitam no volante, enquanto não apresenta nenhuma expressão.

  Um jovem adulto, imagino, começando a subir em sua grande carreira como sei-lá-o-que. Está em um relacionamento, isso com certeza. Que seja uma loira, combina com ele. Alta, magra, corpo escultural, talvez médica ou advogada. O casal prodígio, suas famílias estão orgulhosas. Após o casamento, passam a lua de mel no Caribe, ou Cancún. Tem filhos, talvez dois, talvez três. Talvez uma pequena garotinha, de cabelos castanhos e olhos indecisos, nem azuis, nem verdes, nem mel. Vivem felizes, ela cuida da casa e da pequenina, ele trabalha. Até que ele se cansa, do trabalho, do casamento, da mesma rotina, e procura novas aventuras em novos corpos e sorrisos. Ela por sua vez continua fiel, porém a cada dia mais triste, solitária, depressiva. A garotinha vê em seus olhos, a angustia. Agora, a garotinha não é mais uma garotinha, e a angustia ainda está ali, ouve os gritos, as discussões, o medo, o choro. Ouve a porta se fechar pelas costas de seu pai, e nunca mais abrir diante dele, naquela casa.

  A chuva, a lembrança. Foi em um dia como este que tudo aconteceu.
  Entro em meu café favorito. Não é nada clichê como Starbucks ou coisa do tipo, Nancy faz o melhor café, de todos os tempos! Ela prepara tudo maravilhosamente bem, é uma cozinheira de mão cheia!
- Olá querida, o que vai querer?
- Só me vê um café Nancy, por favor. O de sempre. - Sentei-me no balcão, próxima a ela, distraída com alguns panfletos e o cardápio.
- O de sempre... - Ela repetiu enquanto limpa a bancada - Dia difícil?
- Não... eu só, ando pensando demais. - Dei um meio sorriso.
- Ok. - Ela assente e sai.
  Enquanto me entretenho com os papéis, alguém cutuca meu ombro. Viro-me e fico surpresa. O cara do carro, molhado e com a respiração acelerada. Fico imaginando se ele veio me perguntar porque o fiquei olhando.
- Você?...
- Hum, pois é. - ele desvia o olhar para o balcão, coçando a nuca. Ainda ofegante, suponho que tenha corrido na chuva que agora cai mais forte. Sua roupa social está emsopa. Continuo a encara-lo sem saber o que dizer, esperando o motivo pelo qual ele estava ali. - Você deixou isso cair.

  Que pessoa hoje em dia, não da a mínima para seu celular? Bingo. Normalmente uso meu computador para acessar a internet, mas quando da pau, corro para o celular. Sou tão desligada que uma vez o perdi entre as almofadas do sofá, e fui me dar conta três semanas depois. Raramente recebo mensagens ou ligações, então é algo nada importante.
- Obrigada. - Agradeço educadamente, colocando o aparelho no bolso de minha jaqueta.
  Ele se senta ao meu lado, parece esperar algo a mais, como "Nossa! Muito obrigada mesmo!", "Você salvou minha vida!", ou ainda "O que posso fazer para te agradecer? Quer trezentos dólares?".
  Continua apenas o contato visual. Talvez ele goste disso, de ser encarado, de me encarar, de esperar uma recompensa fora do normal e desnecessária para dada situação.
- Da próxima vez tome mais cuidado. - Não digo nada, e ele continua - Assaltos também podem ser perigosos, e podem levar seu celular. - O que?...
- Eu não fui assaltada.
- Mas poderia.
- Obrigada pelo conselho, eu acho. - Revirei os olhos. O que há de errado com esse cara?
- Porque ficou olhando pro meu carro?
- Achou que eu ia te assaltar?
- Claro que não! É só que...
- Posso te fazer uma pergunta? - Fica em silêncio, e por fim da de ombros. - Você tem alguma namorada, tipo, sei lá, loira?
- Sim - Me senti orgulhosa, era certo... - Mas, na verdade, eu tinha. Terminamos hoje.
- Ainda bem que ela abriu os olhos antes da tragédia... - Murmurei.
- O que?
- Nada.

  Nancy chega com meu café, quente e que me da água na boca. Café é a melhor bebida do mundo, beba café! Há Nancy, meu anjo, o que eu faria sem...
- Frank! Vai querer alguma coisa? Você parece péssimo... - Frank? Mas que diabos...
- Hoje não Nancy, obrigada. - Disse, o cara do carro.
- Ok! Vejo que você conhece a Liz.
- Liz... - Abriu um meio sorriso e eu respondo com um sarcástico. Nancy se retira, e o socialzinho volta a falar - Então...
- Então... - Entretenho-me com o café, misturando o açúcar e observando a espuma se fundir com o liquido negro.
- Você precisa de carona pra casa? - Com essas palavras quase engasguei e cuspi o café levado a boca.
- Com você!? - Minha expressão era de incredulidade.
- Com quem mais?
- Não sei, com o próximo cara que me devolver meu celular caído na rua?
- Ha, ha, ha!... - Cruzou os braços - Você está julgando minha boa ação.
- Então quando as pessoas perdem seus celulares em noites chuvosas, você as persegue para devolver?
- Parabéns! Descobriu meu plano. - Ele batia palmas.

  Tomo dois goles do café, totalmente ignorando Frank, mas ele ainda me fita.
- Ta bom cara, o que você quer?
- Não sei... Mil dólares?
- Por um celular recuperado? Que por acaso eu nem dou a minima?
- Você perguntou o que eu queria...
- De mim... - Mas que idiota.
- Quero que aceite minha oferta.
- Não quero comprar nada de você, e nem sou uma prostituta para aceitar oferta alguma. - Disse perdida, olhando para as prateleiras atrás do balcão. Bebo mais um pouco do café.
- Sabia que ainda existem pessoas boas no mundo? - Se inclinou próximo, como que querendo atenção.
- E você é uma delas? - O olhei.
- Ta da! - Abre os braços sorrindo. Continuo sem expressão, mas quero rir. - Vamos lá.
- Não foi você quem disse que assaltos são perigosos?
- Eu não vou te assaltar... - Ele deixa os braços penderem ao lado do corpo, negando com a cabeça.
- Não vai me estuprar ou algo assim? Vai?
- Caramba! Eu acabei de devolver seu CELULAR! O que acha que eu vou fazer?
- Não sei... nos filmes os menos suspeitos são os verdadeiros culpados...

  Ele suspira e se debruça na bancada, enquanto tomo outro gole e finalizo meu café. Olho em volta, o estabelecimento está completamente vazio, não há uma alma viva além de mim, Frank e Nancy, que arruma as coisas para ir embora. Olho para fora e não há transito algum, por um longo momento a calmaria é completa. De repente começam a aparecer alguns carros e pessoas. Mas que instante muitíssimo estranho.

  Até então, Frank continua debruçado sobre o balcão e Nancy se aproxima, retira minha xícara, pronta para dar o fora dali.
- O que aconteceu com ele? - Pergunta enquanto lava a xícara.
- Não sei... No entanto, obrigada pelo café, aqui.
  Entrego-lhe o dinheiro e me retiro. Ouve-se um barulho de batida e de repente, uma explosão. Corro para a porta de entrada, observando a rua. Dois ou três carros pegam fogo, amontoados, algumas pessoas em volta observam. Frank a meu lado, abre a porta.
- Foi apenas um acidente. - Diz ele.
- Parece que sim... - Murmuro observando as chamas a pelo menos dez metros.
- O que está acontecendo? - Nancy apaga algumas luzes e se dirige até nós.
- Espere - Frank encosta a porta e aponta.

  Pessoas correm pela rua, seus rostos apresentam expressões de desespero. Mais carros passam em alta velocidade. Ouvem-se gritos. Com a televisão ainda ligada, Frank aumenta o volume para que possamos ver o noticiário. O âncora, com cabelos grisalhos, deve ter por volta dos cinquenta anos, diz "Pois é Marie, foi um gravíssimo acidente, como todos sabem até então. O hospital tem um grande renome, com enorme reputação, porém, imprevistos acontecem.", e ao fundo pode-se ver o tal do hospital, bombeiros a sua volta, pessoas correm. Por fim, é retomada a emissão para uma moça, presente no local. "Exatamente George, estamos aqui para ficar a par da situação. Parece que pesquisadores que trabalhavam no hospital, avaliavam uma nova espécime de vírus, contudo, em um momento de experiencias ocorreu o acidente. Esses pesquisadores, acabaram tendo contato e contraíram o vírus, mas já estão sendo socorridos." Ao fundo, ocorre outra explosão, a repórter se assusta. Neste mesmo momento, uma mulher com olhos arregalados e dentes a mostra se joga sobre Marie, a repórter. Ela grita e se debate no chão, enquanto a mulher louca a morde. Então a força acaba.

- Meu Deus! O que está acontecendo? - Nancy se apavora, e leva a mão ao peito segurando seu pingente de crucifixo.
- Mas que merda! - Frank grita.
  Um homem, como a mulher que atacara a repórter, com olhos vermelhos arregalados, mãos sujas de sangue bate nas portas de vidro do café, e espuma pela boca. Parados, imóveis, observam os três aquela criatura, que murra, bate e grunhe do lado de fora. Sinto minha respiração pesada, Nancy ainda aperta uma mão no peito e a outra em meu ombro. Frank está a nossa frente, seus braços estendem-se abertos como forma de proteção. A criatura revoltada percebe que seu esforço em bater no vidro não está a adiantar, então joga seu corpo contra a porta. Uma. Duas - ela trinca. Três - racha. Quatro - fudeu. Se levanta do chão cambaleante e vem em nossa direção, grunhindo, e então - BANG. O barulho ecoa no pequeno recinto, e, depois de segundos, silêncio. Ouvem-se respirações, aliviadas e frenéticas.
- Mas... que merda cara!... - coloco as mãos no joelho e minha cabeça pende para frente do corpo. Ergo o olhar para Frank - Porque diabos carrega uma arma com você!?
- Tenho... medo de ser assaltado... - Mas que merdinha...

***

Fiquei com vontade te postar esse "começo de história", se é que podemos chamar assim, pois meu desejo por escrita só aumenta. A escrevi uma vez que estava na casa da minha avó - fui comprar um caderno só pra escrever alguma coisa, e isso acabou saindo. Deixo livre como inspiração.
Bom, só pra não deixar o blog sem movimento, e também, estou finalizando um post sobre últimos filmes que assisti - que comecei dias atrás, mas a preguiça não me permite continuar... - e prometo incluir imagens do meu sketchbook e diário de viagem, como disse no ultimo post.

xoxo

2 comentários:

  1. Júlia, eu amei o texto, de verdade ♡

    No começo parece que a narrativa é um tanto romântica, mas acaba-se descobrindo que é bem misteriosa e intrigante.

    Eu gostei dos diálogos das personagens e gostaria de saber se a Liz é inspirada em você, ou se tem um pouco de ti na personagem.

    PS: Ansiosa para ver os desenhos do sketch e os últimos filmes que você assistiu ♡ ♡ ♡ ♡ ♡

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  2. Que texto lindo e surpreendente. Adorei a virada da narrativa no final. Aliás, o começo me lembrou um livro que li há algum tempo da Sophie Hannah.

    Estou aguardando seu diário de viagem e seus desenhos! Até mais. ♥

    palavras agridoce ♡

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